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Rafael Guimarães, Psicólogo, CRP 04/30844 Agendar consulta
Blog • Relacionamentos

Amor companheiro: o que vem depois da paixão

A queda da intensidade do começo costuma ser lida como sinal de que o amor acabou. A psicologia descreve outra coisa: uma mudança de composição, em que outros componentes do amor ganham espaço.

Por Rafael Guimarães, psicólogo, CRP 04/30844

A trilogia de Richard Linklater conta a história do mesmo casal em três momentos. Em Antes do Amanhecer (1995), os dois se conhecem num trem, descem em Viena e passam a noite caminhando e conversando. Em Antes do Pôr do Sol (2004), se reencontram nove anos depois. Em Antes da Meia-Noite (2013), já dividem uma vida, com filhas, rotina e brigas que não cabem num roteiro romântico.

O primeiro filme é sobre paixão. Os outros dois são sobre amor. E essa diferença tem nome e descrição na psicologia.

Os três componentes do amor, segundo Sternberg

Em 1986, o psicólogo americano Robert Sternberg publicou na revista Psychological Review a teoria triangular do amor. Para ele, o amor tem três componentes que se combinam de formas diferentes:

  • Intimidade: proximidade, confiança, sensação de ser conhecido e de conhecer o outro.
  • Paixão: atração, desejo, a excitação do começo.
  • Compromisso: a decisão de estar junto e de sustentar essa decisão ao longo do tempo.

Cada combinação dá um tipo de amor. Paixão sozinha, Sternberg chamou de paixão cega. Intimidade com paixão, de amor romântico. Os três juntos, de amor completo. E intimidade com compromisso, com menos paixão, de amor companheiro.

Por que a paixão muda de lugar

No modelo de Sternberg, os componentes não andam no mesmo ritmo. A paixão costuma subir rápido e perder intensidade. Intimidade e compromisso crescem devagar e dependem de tempo e de convivência real.

A psicóloga Elaine Hatfield (que publicou parte da obra como Elaine Walster), em trabalhos dos anos 1970 com Ellen Berscheid e G. William Walster, já distinguia amor apaixonado de amor companheiro. A ideia comum é que a intensidade do começo e a estabilidade que vem depois são coisas diferentes, e que a segunda não é uma versão piorada da primeira.

Isso explica a sensação de queda que muita gente descreve depois dos primeiros anos. O componente que sustentava quase tudo perde força antes que os outros tenham crescido o suficiente. Quando o casal interpreta essa fase como o fim, costuma tomar decisões a partir de um diagnóstico errado.

A paixão acaba mesmo?

Nem sempre. Em 2009, Bianca Acevedo e Arthur Aron revisaram estudos com casais de longa duração e encontraram que o amor romântico pode continuar presente depois de muitos anos, sem o componente obsessivo do início, e que ele aparece associado a maior satisfação com a relação. O que tende a desaparecer é a ansiedade do começo, não necessariamente o interesse pelo outro.

Pesquisas do mesmo grupo, como a de Aron e colegas publicada em 2000, também observaram que casais que fazem juntos atividades novas e estimulantes relatam melhor qualidade na relação. Não é uma receita, mas ajuda a entender por que a rotina pura costuma pesar.

O que a trilogia mostra que a maioria dos filmes não mostra

A maioria das histórias de amor termina no beijo, no ponto em que a paixão está no auge. A trilogia continua depois, e por isso fica mais desconfortável de assistir: no terceiro filme, o casal briga sobre filhos, trabalho, escolhas de vida e mágoas antigas.

Esse atrito não é sinal de que o amor morreu. É o que acontece quando duas pessoas reais continuam juntas por tempo suficiente. A pergunta deixa de ser se ainda existe paixão e passa a ser se existe intimidade e compromisso para atravessar o conflito.

Quando a mudança de fase vira distância

Nem toda queda de intensidade é saudável. Às vezes a paixão diminui e a intimidade não cresce no lugar dela. O casal fica funcional, mas distante: divide tarefas, mas não conversa sobre o que importa.

Na terapia de casal, uma das tarefas é justamente separar essas duas coisas: o que é mudança natural de fase e o que é afastamento que precisa de atenção. Na abordagem da Gestalt-terapia, isso passa por olhar para o contato entre os dois no presente, em vez de comparar a relação de hoje com a lembrança do começo.

Perguntas frequentes

A paixão acaba mesmo?

A intensidade do começo tende a diminuir com o tempo, e isso é descrito de forma consistente na literatura. Mas pesquisas com casais de longa duração mostram que o interesse romântico pode continuar presente, sem a ansiedade e a obsessão do início.

Amor companheiro é amor de menos?

Não. No modelo de Sternberg, amor companheiro combina intimidade e compromisso. É uma forma de amor com base mais estável, e não uma versão enfraquecida da paixão.

Quando vale procurar terapia de casal?

Quando a mudança de fase vira distância, quando as conversas difíceis sempre terminam do mesmo jeito, ou quando um dos dois sente que está sozinho na relação. A terapia de casal ajuda a olhar para esses padrões com os dois presentes.

Referências

  • Sternberg, R. J. (1986). A triangular theory of love. Psychological Review, 93(2), 119–135.
  • Walster, E. & Walster, G. W. (1978). A New Look at Love. Addison-Wesley.
  • Acevedo, B. P. & Aron, A. (2009). Does a long-term relationship kill romantic love? Review of General Psychology, 13(1), 59–65.
  • Aron, A., Norman, C. C., Aron, E. N., McKenna, C. & Heyman, R. E. (2000). Couples' shared participation in novel and arousing activities and experienced relationship quality. Journal of Personality and Social Psychology, 78(2), 273–284.

Sobre quem escreve isso

Sou Rafael, psicólogo clínico com 16 anos de experiência, abordagem em Gestalt-terapia e pós-graduação em terapia de casais. Atendo casais e adultos em Ouro Branco, MG, e online. CRP 04/30844.

A relação de vocês mudou de fase?

Dá pra olhar isso com calma numa conversa, com os dois presentes.

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