O Setembro Amarelo existe para lembrar de algo que devia ser óbvio, mas não é: falar sobre vontade de morrer não aumenta o risco. O silêncio, sim. A campanha nasceu no Brasil em 2015, puxada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) em parceria com conselhos e associações da área da saúde, e o dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
Escrevo isso como psicólogo que atende, todos os dias, gente que carrega mais peso do que aparenta, não como quem repete uma estatística distante.
Quem costuma carregar esse peso em silêncio
Alguns perfis que atravessam meu consultório com mais frequência do que as pessoas imaginam:
Adultos neurodivergentes (TDAH, TEA, altas habilidades) que passaram anos sendo lidos como "difíceis", "sensíveis demais" ou "desorganizados", sem nunca terem uma explicação real para o próprio funcionamento. Viver mascarando quem você é, todos os dias, cansa de um jeito que raramente é levado a sério.
Pessoas em crise de relacionamento ou de identidade sexual, que não encontram espaço para falar sobre isso sem julgamento, nem em casa, nem às vezes em terapia.
Quem está bem "por fora", dando conta do trabalho, da casa, das aparências, e nunca foi perguntado como está por dentro.
Isso não é uma lista de sintomas. É um convite para reconhecer que sofrimento nem sempre aparece do jeito que a gente espera.
Sinais que valem atenção
Não é preciso esperar uma crise para agir. Vale prestar atenção quando você, ou alguém perto de você:
- Fala sobre se sentir um peso para os outros, ou que "seria mais fácil não estar aqui";
- Se afasta de pessoas e atividades que antes importavam;
- Muda de comportamento de forma abrupta: de repente muito mais calmo depois de um período de sofrimento intenso também é um sinal de alerta, não necessariamente de melhora;
- Diz, mesmo brincando, frases como "eu não devia ter nascido" ou "vocês ficariam melhor sem mim".
O que fazer
Se isso é você agora: você não precisa ter certeza de nada para pedir ajuda. Não precisa "merecer" atenção, nem ter um motivo que pareça grande o suficiente.
Linha de apoio gratuita, 24 horas, todos os dias:
CVV — 188
Também por chat e e-mail em cvv.org.br. Procurar um psicólogo é outro passo possível, sem pressa de decidir tudo de uma vez.
Se é alguém que você ama: perguntar diretamente ("você tem pensado em se machucar?") não planta a ideia. Se ela existir, já está lá. Perguntar com cuidado abre espaço; o silêncio, não.
Por que escrevo isso
Trabalho com Gestalt-terapia, com adultos neurodivergentes, com sexualidade e com casais: áreas onde a gente aprende, na prática, que sofrimento raramente é só "um problema". Costuma ser uma soma de cansaço, de máscara, de não ter tido, em algum momento, um espaço seguro para simplesmente ser.
Setembro Amarelo não é sobre um mês. É sobre lembrar, o ano inteiro, que pedir ajuda é o primeiro recurso, não o último.
Sobre quem escreve isso
Sou Rafael, psicólogo clínico com 16 anos de experiência, abordagem em Gestalt-terapia e diagnóstico próprio de TDAH. Atendo adultos neurodivergentes em Ouro Branco, MG, e online para todo o Brasil. CRP 04/30844.